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Elysium

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.11.16

 

 

Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:

- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;

- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);

- a questão dos refugiados (todos nós);

- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);

- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);

- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);

- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;

- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.

 

Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.

 

Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam: 

- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);

- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;

- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;

- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;

- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).

 

Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.

 

Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.  

 

 

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publicado às 08:46

O ponto de vista do morto, num filme de John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.10

 

Um homem que sempre viveu no território da lei do mais forte, a que aprendeu a adaptar-se e a nele sobreviver, ser surpreendido por um forasteiro formado em leis, que tinha sido abandonado quase morto por tentar defender uma dama, de um bandido temível e temido, Liberty Valance...

... sim, um homem assim ser confrontado com um idealista que acredita convictamente que é possível viver num mundo regido pela lei e pela ordem, pelos argumentos da palavra e não da arma...

... e não ser só isso, o facto deste forasteiro lhe vir alterar as ideias sobre as leis do mundo, foi sobretudo vir alterar-lhe os planos futuros... a Hallie apaixonar-se por ele... era quase inevitável, esta mania das mulheres serem maternais, protectoras... e terrivelmente românticas, aquela de ter arriscado a pele por uma dama... mas ele, por exemplo, pela Hallie, arriscaria tudo, tudo... será que ela não sabia isso?

É claro que sabia, vinha logo recorrer à sua ajuda providencial sempre que o forasteiro corria perigo. E o forasteiro tinha a terrível mania de se colocar em situações de perigo, como aquela de desafiar o Liberty Valance.

Mais uma vez salvei o forasteiro, mas só pela Hallie, tudo pela Hallie... vê-la assim inclinada sobre ele, solícita, só porque tinha um braço ferido... e o meu coração? Não viu ela, a ingrata, o meu coração a sangrar? Vá-se lá entender as mulheres, querem um homem e ficam com o rapazinho.

Afogar o desgosto em whisky, que mais pode um homem fazer em semelhantes circunstâncias? Era isso ou dar um murro no rival, mas isso estava fora de questão, salvara-o não salvara? Aí decidira tudo. Estupidamente romântico, decidira acreditar na possibilidade daquele forasteiro realizar esse sonho de implementar a lei e a ordem e de fazer a Hallie feliz.

Agora a casa já não fazia sentido, a casa para a Hallie. E a dor, a dor insuportável...

Erguer-se de novo e ainda ter forças para empurrar o forasteiro, tinha de assumir as suas responsabilidades, ser um homem, aceitar a nomeação. Afinal, se ensinara a Hallie a ler, agora tinha de lhe dar assuntos legíveis. Para isso ainda teria de lhe dizer quem é que matou o Liberty Valance. Seja.

Voltarão só para o meu funeral. A Hallie não me parece muito feliz. Pálida. Oh Hallie, talvez tivesse sido melhor tê-lo deixado morrer naquele duelo suicida com o Liberty Valance... Hallie... e vem com a flor de cacto que lhe ofereci um dia. Hallie, Hallie... preferiste esse rapazinho idealista, o que é que queres? Agora tens apenas fantasmas à tua espera, doces recordações...

 

Este é o ponto de vista do morto, o nosso herói. John Ford sabe que ele é o herói, o que abdica:

- do papel de herói, do protagonismo;

- e da Hallie, por amor, idealismo ou estupidez (com John Ford nunca se fica a saber).

O herói de John Ford não fica imune à vida, a vida fere-o, trespassa-o, fulmina-o. Às vezes apenas o desilude e cansa. Outras, revolta-o e leva-o à acção. Outras ainda, surpreende-o com a felicidade.

Aqui é o primeiro caso. O nosso herói escolhe o caminho mais difícil. E nós, ao vê-lo sofrer a perda dos seus sonhos, quase desejamos que ele não seja tão insuportavelmente nobre, que ele escolha a sua própria felicidade.

É provável que na minha primeira visão deste filme, e teria os meus trinta e tal anos, tenha simpatizado sobretudo com o papel do Jimmy Stewart. O homem idealista, o homem das leis e da ordem. O homem vulnerável e sensível. Hoje, surge-me como um homem essencialmente obcecado e egoísta, mesmo sem o saber, um imaturo, a quem as coisas acabaram por correr bem.

Se a América hoje, mediada pela lei e pela ordem, é melhor? Não sei. John Ford também deve ter formado uma opinião muito particular. A lei e a ordem, indeed! Afinal, não tivera o nosso herói que disparar sobre o bandido? O que teria sido do forasteiro sem essa ajuda preciosa, a lei da arma? O que pensaria John Ford quando colocou aqui este dilema? Secretamente, agrada-me pensar que o próprio John Ford tinha sérias reservas em relação à eficácia desta lei e ordem e que teria preferido, em certas circunstâncias muito particulares, mandar a lei e ordem às malvas e assentar um murro valente em certos sujeitinhos tipo Liberty Valance. Secretamente, também confesso que um murro bem assente resolveria muitos dilemas actuais.

 

Na verdade, já vislumbrei uma outra América, infinitamente mais livre e feliz. A América primordial, onde talvez tivesse sido possível iniciar uma história diversa. Onde a diversidade fosse possível naquela vastidão imensa... Mas o homem traz consigo a doença original e esquece o seu lado sublime.

 

 

 

 

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publicado às 14:37

A interpretação humana da lógica divina

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.09.08

 

The End of the Affair. Inclinei-me, depois de o ver, para esta ideia essencial: a interpretação humana da lógica divina, pois aqui vemos uma forma muito intensa e absoluta de se relacionar com o divino.

Mas também podia ser: cuidado com as promessas que fazemos no plano extraordinário. Uma promessa pode ficar registada para sempre num lugar a que dificilmente podemos ter acesso. Impossível desprogramar.

E também podia ser: não se pode agarrar uma ave em pleno vôo. Agarrar, para natureza masculina; vôo, para natureza feminina. É assim que as duas naturezas nos são aqui reveladas, assim mesmo, tão diversas!

 

2ª Guerra Mundial. Este pormenor é muito importante, porque vai definir o fim de um relacionamento amoroso. Mas antes, vemos uma mulher que vive a tranquilidade de um casamento-amizade. E quando o amor surge, o amor irá impor-se. Ele, um escritor de personalidade intensa e absorvente.

O amor não é prudente. Um dos seus encontros é subitamente perturbado por um bombardeamento e o prédio onde estão é atingido. Ele saíra do quarto para ver o que se passa e é apanhado em pleno vão das escadas, caindo de uma altura considerável. Quando se aproxima dele, desesperada, ela vê-o imóvel, pálido, sem vida.

Volta ao quarto, ajoelha-se e pede o impossível. Que ele viva! Mas para pedir esse impossível segue a lógica da promessa que envolve o maior sacrifício possível: se ele viver, renuncia a ele, ao amor.

Esta é a forma dela se relacionar com o divino: há sempre um preço elevado a pagar pelo amor e pela felicidade.

 

E o impensável acontece. Ele surge ali, ao seu lado... atordoado, balbucia o seu nome... E ela percebe. E o que percebe é: Deus dá-lhe a vida, a ele, em troca da sua, dela, razão de viver, da possibilidade do amor.

Ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido.

A promessa está feita. E num tal momento de aflição, fica impressa no tal lugar a que dificilmente voltará a ter acesso, para a desprogramar. Quando ele surge ali, vivo, é toda uma outra realidade, uma outra dimensão, do inexplicável, do irreal.

 

Interrompo aqui por momentos para assimilar e organizar melhor as ideias. Este é um dilema filosófico que me fascina pela sua dificuldade. É que ainda estou muito longe de uma saída compreensível...

 

... Onde ia eu? Ah, sim... Ela ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido. Um turbilhão de sentimentos e emoções invade-o, acentuando o seu lado obsessivo e possessivo. Inicialmente quer apenas perceber, para poder aceitar. Aquela corrida, a coxear da queda, debaixo de uma chuva constante, atrás do carro... é de partir o coração... O coração (dele) fecha-se, petrifica-se. A dor da perda, sem compreender a razão, torna-o frio e cruel.

Só muito mais tarde, quando lhe surripiar o diário (dela), uma prova, um facto concreto a que se agarrar (comportamento tão masculino!) é que percebe que o que realmente se passou ocorreu numa outra realidade, a lógica de uma interpretação da lógica divina. Uma forma absoluta de se relacionar com o divino. Sim, ele percebe, mas não aceita.

 

Voltarão a encontrar-se. Ela dir-lhe-á que não tem forças para resistir ao amor. Mas sabe qual o preço a pagar: o fim, a saída de cena.

Os dois homens acompanharão esse fim juntos. Ambos sofrem, mas cada um à sua maneira. Um, porque nunca concebeu a sua vida sem ela e acha que não vai suportar a dor (o marido). O outro, talvez para amortecer o impacto da dor, alimenta a revolta: contra Deus, contra a vida, contra o mundo.

Li algures que as personagens que aqui nos despertam mais simpatia e compaixão são a mulher e o marido. Talvez... mas aquela corrida desesperada, sem nada compreender, e depois, mesmo tendo percebido, sem conseguir aceitar, toda essa revolta...

 

Bem, ainda não é desta que me aproximo de uma saída para este dilema... das condições da promessa... para pedir o impossível... Nova interrupção, pois...

 

... A ver se é desta. Voltemos às condições da promessa (dela): para que ele viva, compromete toda a sua vida a partir daí, a possibilidade do amor. Podemos questionar: Mas então porque não pediu simplesmente que ele viva?

Será que me aproximo de uma saída plausível se disser que o seu pedido, de tão extraordinário, na dimensão divina, teria de ser completamente e inequivocamente altruísta? De uma total abnegação? Teria de ser apenas por ele, para que ele possa viver, para que a sua vida lhe seja devolvida, e não para si mesma? E que essa era a condição da sua possibilidade?

É como se tivéssemos interiorizado estes princípios: nada nos é dado que não tenha de ser devolvido (a vida, em primeiro lugar); tudo tem um preço e nada é garantido (os imponderáveis); pedir o impossível só abnegadamente.

 

 

 

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publicado às 17:49

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44


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